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Banalização do Paganismo

A Banalização do Paganismo
Pois é, séculos e séculos decorreram de perseguições, torturas, morte em fogueiras e forcas. Eis então que chegou uma era do homem racional e científico, e a Bruxaria foi vista como uma histeria insana. E hoje em dia o que vemos aos milhares são pessoas desejando a qualquer custo se tornarem “Bruxas”, “Magos” e “Gurus”.

A Bruxaria, em suas várias ramificações, bem como o Paganismo em geral, estão por demais banalizados. Por um lado vemos um bando de adolescentes desinformados e deslumbrados com a perspectiva de obter “poderes” mágicos, que se auto-intitulam “Bruxos” para principalmente, inflarem seus egos e se sentirem diferentes de seus coleguinhas de colégio. Por outro lado vemos “Pseudo-Sacerdotes e Sacerdotisas”, escritores e escritoras medíocres, que ensinam e propagam engodos dos mais variados gêneros, clamando para si mesmos títulos e hierarquias, e que colocam cada vez mais lenha nesta “fogueira de egos”, induzindo mais e mais a banalização que vemos nos dias de hoje. Olhando para essas pessoas eu paro e penso, “a que ponto chegamos?”. Conheço uma Strega (uma Bruxa Italiana) que me é muito cara, que foi treinada e ensinada nas terras do norte da Itália há uns trinta anos atrás. Lembro dela me contando das dificuldades que teve de passar em seu treinamento; dificuldades lingüísticas, já que as Streghe que a ensinaram falavam em um dialeto extremamente difícil, dificuldades físicas que ela teve de passar para ser testada, e muito mais. Uma genuína Bruxa, de uma verdadeira linhagem de Bruxas Italianas; e esta minha amiga tão querida é uma das pessoas mais humildes que conheço. Ela não proclama aos quatro ventos que é uma “Bruxa de Linhagem”, e de tão humilde já chegou ao ponto de dizer que muito aprendeu comigo e com um outro amigo nosso (isso me faz corar, pois vejo nela a verdadeira simplicidade de espírito que os seres humanos deveriam ter – e digo mais… amiga, nós sim que aprendemos cada dia mais com você!).

Agora comparo esta minha mui lesta amiga com os “pseudo-bruxos” que vemos se propagando por ai. Qual deles se dignaria a passar pelo que ela passou? (afinal, “pra que? É só ler meia dúzia de textos na Internet que eu me torno bruxinha”) Qual deles seria humilde como minha amiga? A resposta é simples: nenhum. Afinal, esses “bruxinhos e bruxinhas” já têm em suas casas seus vidros cheio de ervas mortas compradas em lojas caríssimas, seus sites de “auto-formação bruxistica” em seus links favoritos e seus livros com listinhas de deuses e deusas pagãos, com as quais eles (os bruxinhos e bruxinhas) podem invocar no momento que desejarem, tratando esses deuses como meros serventes que tem a mera obrigação de trazer namorado ou de arranjar dinheiro.

Sejamos mais específicos e olhemos para o cenário da Wicca atualmente. A Wicca é uma religião nobre, formalizada pelo saudoso Gerald B. Gardner. Se estudarmos fontes como Doreen Valiente e Janet & Stewart Farrar, veremos que a Wicca é embasada em antigas tradições e costumes que foram transmitidos para Gardner, e que este, para preencher as lacunas que faltavam, as complementou com material mágico e pagão que conheceu em seus vários anos como pesquisador e antropólogo, formulando o que hoje é conhecida como Wicca Gardneriana. A Wicca Gardneriana é um caminho extremamente hierárquico e iniciático, com leis, ritos específicos e técnicas poderosas e secretas de treinamento. Virtualmente um caminho inacessível para os “bruxinhos e bruxinhas” citados. Mas quando ouvimos a palavra Wicca, normalmente nos vem em mente esses mesmos “bruxinhos e bruxinhas”; por que isso? Simples, muito simples. Pois nos últimos anos ocorreu uma generalizada banalização da Wicca por pseudo-sacerdotes e escritores. Estes últimos criaram a ilusão de que a Wicca é como algo que se pode comprar em uma prateleira de supermercado. Para que vocês tenham idéia da banalização que foi feita da Wicca, o irmão de uma amiga minha, de apenas quatorze anos de idade, outro dia disse para nós: “cara, tem uma menina na minha sala que fica se dizendo bruxa, wicca e tal. Essa menina não percebe o quão idiota ela é?”. Se um garoto de apenas quatorze anos já tem uma visão como essa, imaginem como a suposta Wicca se mostra para pessoas adultas e em meios acadêmicos. Cá comigo fico vendo o Sr. Gardner se debatendo em seu túmulo. Não sou Wiccano, mas respeito este caminho como um caminho sério e válido; sim, respeito o caminho Wiccano, mas o verdadeiro caminho Wiccano, descendente de Gardner. Já vi muitos livros e textos chamarem os Gardnerianos de “Esnobes da Arte”; pois bem, os Gardnerianos estão totalmente certos, e meu conselho para os amigos Gardnerianos é que continuem assim, para que não sejam confundidos com “bruxinhos e bruxinhas”.

Ultimamente também tenho visto muitos “bruxinhos e bruxinhas” que aderiram a uma nova tática. Como eles mesmos tem visto a banalização que a pseudo-wicca se tornou, agora eles desejam ser “Bruxos Tradicionais”. O que já recebi de e-mails destas pessoas dizendo que a “avó era bruxa”, ou que “foram bruxos na encarnação passada” e coisas do gênero, não está escrito. Certa feita recebi um em que, a garota em questão se apresentava como sendo neta de uma Strega, e dizendo-se detentora de uma hereditariedade de costumes e tradições. Por fim, a garota assinava com um “nick” celta e nem ao menos a palavra “Strega” ela conseguiu escrever corretamente. Quando indagada sobre qual região da Itália havia vindo suas tradições e tudo mais, simplesmente ela não respondeu e sumiu do mapa. Dei risada, fazer o que?

As ramificações da Bruxaria que conheço (sim, muito poucas, ao contrário do que muitos pregam de que toda a Bruxaria é Wicca. Diga isto para uma Bruxa Africana, lá de uma tribo bem isolada para ver o que vai lhe acontecer. Bem, é melhor nem procurar por uma para lhe dizer isso, pode ser perigoso!!!) são tradicionalmente iniciáticas, como qualquer religião de mistério. Tomando o exemplo da África, comparemos com nossa gloriosa tradição afro-brasileira do Candomblé. Uma religião pagã de mistério, altamente hierarquizada e iniciática. São necessários no mínimo sete anos para que se atinja o nível de Ebomi, uma pessoa apta para ser Sacerdote do culto, e nem mesmo todos os que chegam a este nível se tornam Sacerdotes e Sacerdotisas. Agora imaginem se começasse a surgir por ai “auto-feituras-de-santo”, e vários adolescentes começassem a auto-intitular-se “Pais e Mães de Santo”. Pois bem, inconcebível. Mas isto ocorre, infelizmente, na Bruxaria destes nossos dias, e temo sinceramente que isso venha a banalizar mais e mais as antigas artes das Bruxas. O que me consola é que toda moda vem e vai, sendo substituída por outra; primeiro veio a moda new age, onde todos liam Tarot, invocavam “Luz Branca”, viam anjos e seres espectrais e “alinhavam seus chacras com pedras e cristais”. Depois veio a pseudo-wicca, onde qualquer jovem que dispusesse de alguns trocados para comprar o mais novo livro publicado seria instantaneamente “bruxinho ou bruxinha”. Agora, ao que parece, a onda é ser “Bruxo Tradicional” – Bruxaria Italiana, Bruxaria Bretã, Bruxaria Irlandesa, não importa qual, o que importa é ser “Tradicional”. Quem sabe o que virá depois? O Culto a Grande Abóbora?

O que pensaria Aradia ou até mesmo Gerald Gardner de tudo isso???

Che Diana Benedica tutti voi!!!
Charun Lucifero

Fonte: http://www.stregoneria.kit.net/artigo_003.htm
http://www.paganismo.org/index.php?option=com_fireboard&Itemid=446&func=view&catid=18&id=14082#14082

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